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TRADIÇÃO RELIGIOSA CENTENÁRIA CELEBRA E PERPETUA A FÉ DO POVO DE SILVIANÓPOLIS E REGIÃO DURANTE A QUARESMA

Durante o período da Quaresma, iniciado na Quarta-Feira de Cinzas e encerrado na Sexta-Feira da Paixão, uma tradição centenária que atravessa gerações e se mantém viva através dos “Encomendadores das Almas”, equipe formada por integrantes do Grupo Cultural Reza Para as Almas Benditas, enriquece e vislumbra a população de Silvianópolis, através de cortejos que percorrem as ruas da cidade, durante à noite e a madrugada, rezando e cantando pelos mortos. Os rituais, repetidos durante vários dias no município e em cidades vizinhas, como Poço Fundo e o Distrito do Paiolinho, levou, a toda as residências visitadas, os cantos antigos.

Coordenado por José Denilson de Almeida, o grupo dos Encomendadores das Almas tem como objetivo fazer orações que lembrem e celebrem as essências de amigos, familiares e conhecidos das famílias visitadas. A gente recomenda para as almas, reza por elas, para que possamos lembrar de todos aqueles que já se foram, que já fizeram parte das nossas vidas. A gente pede a elas, aonde estiverem no paraíso, para que olhem por quem aqui ficou, pedindo um bom caminho, a luz divina em nossas vidas, na nossa alma, no nosso espírito”.

Além dos cantos, o silêncio também faz parte do rito. O som da matraca, instrumento tradicional utilizado nos trabalhos, é o único que rompe o silêncio da madrugada e anuncia a presença do grupo, como explica o mestre Denilson.A gente alerta, o pecador alerta. Quando a gente bate a matraca na casa, alertamos o dono que estamos chegando. Daí, a primeira coisa que fazemos é a reza cantada, o alerta aos moradores, para acordar os que estão dormindo neste sono tão pesado. A gente alerta eles. Se estivermos dormindo, vão saber que estamos chegando, pois já aparecemos cantando para eles, para o nosso Senhor Jesus Cristo e para as santas almas benditas. Aí o dono da casa, se estiver deitado, continua lá quietinho, e a gente vai pedir, rezando também, cantado, um Pai Nosso com a Ave Maria, para ele rezar lá, porque o primeiro Pai Nosso que a gente pede é pelos seus parentes, pelos seus familiares. Aí, a gente dá um tempo para ele rezar o Pai Nosso com a Ave Maria pelas almas dos parentes deles, dos familiares. Depois, peço de novo, cantando, para a família estar rezando um segundo Pai Nosso com a Ave Maria, que é pelas sagradas mortes e paixão do nosso Senhor Jesus Cristo, tudo cantado. E o dono da casa reza lá, o Pai Nosso com a Ave Maria, pelas sagradas mortes e paixão do Senhor Jesus Cristo.

Segundo a tradição, assim que os encomendadores das almas chegam na porta das casas, independente da situação e cultuando a fé da manifestação cultural, os moradores não podem sair. Eles devem ouvir as orações e participar delas de dentro da própria residência, conforme explica Denilson. “Em uma casa eu rezo pelas almas, e peço para rezarem um Pai Nosso pelas almas das encruzilhadas, que não têm ninguém por elas, pelas almas do purgatório, pelos peregrinos, pelas almas do inferno, pelas almas perdidas, pelas nossas intenções, pelas almas que estão no céu, pelas almas do cemitério, do purgatório, pelas almas em geral. Então, em cada casa, peço um Pai Nosso diferente, para não ficar muito repetitivo”.

O Grupo Cultural Reza Para as Almas Benditas de Silvanópolis costuma sair pelas ruas da cidade geralmente às 22 horas horas e seguir pela madrugada, pois, de acordo com Denilson, este é o momento em que a cidade se encontra em silêncio. “Nessas horas está tudo quietinho, não tem conversa, é a gente chega em silêncio também. Se tiver algum cachorro na casa que a gente chega, ele sempre ficará latindo, mas permanecemos quietos, fazendo menos barulho possível, para apenas rezar, bater a matraca, alertar e ir embora. Como, geralmente, está todo mundo dormindo, dependendo do lugar, até dá um eco, parece que a gente tem outra turma rezando, respondendo do outro lado. É muito bonito”.

Denilson também revela que a tradição de rezar pelas almas foi passada de geração em geração na cidade. Ele, por exemplo, começou ainda menino, influenciado pelos mais velhos. Hoje, como mestre do grupo, ele relembra, com carinho, o início da sua caminhada na tradição. “Comecei a participar desse grupo aos 8 anos de idade, quando os companheiros mais velhos foram rezar na minha casa, numa Sexta-Feira da Paixão. Eu não conhecia, não sabia o que era aquilo. Quando chegaram para rezar, estava chovendo demais, eles bateram a matraca para alertar e começaram a rezar, eu abri a porta, acendi a luz para chama-los pra dentro, pois não conhecia a reza. Aí, pediram ao meu pai, que estava rezando com eles, que fechasse a porta, já que iriam rezar ali. Depois, abri a porta e pedi que fossem rezar dentro de casa, pois chovia e estava com medo de que eles molhassem na área da porta da casa. Eu não conhecia, era inocente. E, naquele dia, rezaram tudo certinho. Depois, ainda naquela noite, acompanhei meu pai debaixo de chuva até as outras casas. Foi onde quis aprender a reza, como tudo acontecia, e aprimorar mais. De lá pra cá, gostei muito desse grupo e fui aprendendo, resgatando essa cultura para não deixar acabar. Hoje, sou o coordenador e já estou repassando tudo ao meu filho. Com fé, cantos, silêncio e devoção, nós, os encomendadoresdas almas, seguimos firmes, mantendo viva uma das manifestações mais antigas da cultura religiosa popular de Silvianópolis”.

Acompanhamento

Na noite do último dia 1º (quarta-feira), a reportagem d’O Douradense acompanhou os “Encomendadores das Almas” durante as peregrinações. Entusiasmados com os trabalhos, o grupo formado por integrantes com idades entre 18 e 75 anos, visitaram seis residências.

Após os rituais, todos foram recebidos na casa da aposentada Maria Beraldo, situada na Rua Francisco Teodoro de Almeida, no bairro Primavera, onde os trabalhos foram encerrados e um delicioso café, regado a quitandas, chás e cafés.

Durante o momento de confraternização, os integrantes do grupo conversaram novamente com a reportagem do d’o Douradense e contaram como funciona o cordão de vozes, além de detalhar como funcionaram e foram distribuídas as atividades neste ano.

Essa nossa reza nossa para as almas é antiga. Ela vem desde os nossos pais, avós e está passando de geração em geração até chegar nesse grupo que a gente tem hoje, formado por amigos, pelo meu filho e pelo meu irmão. A gente sempre tem essa reza no decorrer da quaresma, que a gente começa na Quarta-Feira de Cinza e termina na Sexta-Feira Santa, onde a gente visita todas as famílias, pede para rezar pelas almas dos seus parentes, para as almas perdidas, para as almas em geral, e pela sagrada morte de Jesus, que morreu na cruz por cada um de nós. Então, quando entra a Quaresma, a gente agenda as casas, não só na cidade, mas na zona rural também, para as famílias saberem que a gente está indo lá. Antigamente, não era assim. O pessoal chegava de repente, mas, hoje, com todas essas mudanças e muita insegurança, não dá pra ser dessa forma. Por isso, precisamos deixar as pessoas cientes de que estamos indo às propriedades rurais e em suas casas”.

“Mesmo com esses pequenos imprevistos, participar desse grupo e propagar a fé junto às pessoas é muito gratificante, pois a gente recorda das nossas famílias, dos amigos e familiares que se foram e necessitam de nossas orações para que suas almas encontrem a paz e a luz. A gente fica muito feliz em saber que as famílias das casas em que vamos rezar nos recebem com o maior carinho. Agradecemos todo o apoio e pedimos a Deus que dê saúde e força para que possamos continuar nosso trabalho. É uma satisfação pra gente conhecer pessoas. E, para nós, que temos esse dom da voz, que Deus nos deu, poder contribuir com o próximo é muito gratificante. Num conservatório,  por exemplo, você pega os instrumentos, o piano, o diapasão e dá o sinal. Aqui não. Tiramos o tom, e o cordão consegue responder. Então, esse dom da voz é uma riqueza, é uma coisa bonita. A gente fica agradecido a Deus por ter esse dom. É uma satisfação estar aqui mais uma vez, pois encontrar as famílias é uma grande alegria. O pagamento que a gente recebe é a satisfação, a alegria de estar em uma reunião bonita igual essa aqui”, relata o outro integrante do grupo, José Márcio Alves, mais conhecido como “Preguinho”.

Hoje, o cordão do grupo Encomendadores de Almas é composto por seis pessoas, divididas entre o mestre que alerta na frente, o contramestre, o contrato, a quarta, a quinta e a sexta voz. Além de Denilson e José Márcio, também fazem parte Didier Marques, Geso da Costa, Ivan de Almeida, Igor Gabriel de Almeida e Emerson Custódio.

O encerramento das atividades se deu no dia 3, Sexta-Feira da Paixão, no Cemitério de Silvianópolis, onde foi feito um ato diferente, com velas acesas e rezas pelas almas de entes querido das famílias presentes no local.

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